A água e a realidade Indiana

A água e a realidade Indiana

 

1. Aspectos Gerais

Sem dúvida a água é o bem mais precioso existente no mundo e, em um país tão populoso como a Índia, o desafio para gerenciar corretamente esse recurso não é simples. Vamos ver o que acontece por aqui, A água e a realidade Indiana é o assunto da vez!

Em um país onde predominam atividades rurais (agricultura / agronegócio) a quantidade e qualidade disponível de recursos hídricos é fundamental. Além disso, grandes empresas como Coca-Cola, Nestlé, Pepsico, quando instalam suas fábricas preparam estudos complexos em relação aos recursos disponíveis. Já imaginou investir bilhões em uma nova unidade e não conseguir colocar o produto no mercado devido a inexistência de um recurso primário/chave?

As monções, termo utilizado para caracterizar a estação climática da chuva intensa, não estão sendo suficientes para o país Indiano. A falta de água é uma realidade em muitas cidades e as mudanças climáticas e o aumento da população contribuem para agravar a crise hídrica. Em boa parte dos estados como o Maharashtra o qual contempla cidades importantes como Mumbai, Pune, Navi Mumbai etc, toda a água disponível tem origem nos lençóis freáticos e isso significa que se não chover…..

Por aqui o racionamento é comum, ocorre há tempos e vem gerando muita polêmica. Muitas pessoas não aceitam o fato de terem menos água em suas torneiras e os fazendeiros dizem que estão sem água enquanto assistem as empresas engarrafando água e as vendendo no supermercado. Um dos meus colegas da empresa comentou que a agricultura também vem sofrendo muito com isso, em 2010/2011 a Índia precisou importar arroz pois muitos agricultores perderam toda sua produção.

A falta de água além de complicar a vida de quem produz o alimento (a população aqui é predominantemente rural, cerca de 70%, são mais de 850 milhões de pessoas), compromete o bolso do cidadão, uma vez que ele irá pagar mais caro pela mesma quantidade de comida. Como sempre, sofre mais o pobre que tem uma renda menor e vê seu poder de compra diminuir cada vez mais.

2. Infraestrutura, distribuição e consumo

 

Falando de água de uma maneira geral (em termos de abastecimento), aquela água que chega na torneira, não é uma realidade em muitas moradias aqui na Índia . Muitos locais e até algumas cidades inteiras estão sobrevivendo a base de caminhões pipa vindo de outras regiões. O grande problema é que recentemente as chuvas não estão colaborando, não cai uma gota de água em Mumbai desde Junho de 2015 (escrevo esse texto em Maio de 2016).

Obviamente as casas e apartamentos é atendida pelo sistema governamental de distribuição e as fazendas geralmente utilizam os poços e outros recursos para armazenar água (Cisternas, reservatórios etc). Já a população pobre, que vive em condições desumanas como barracos e outros locais, estes buscam águas em baldes, galões e armazenam em bombonas (contêineres de 200L). Andando por aqui em muitas regiões você vê as mulheres lavando roupa e até algumas pessoas bebendo essa ”água da rua” a qual provavelmente carrega muita contaminação e é propícia para a disseminação de graves doenças como a cólera.

Por aqui a recomendação é não consumir nenhuma água que não seja de garrafa. Na empresa eles usam aqueles galões de 20L, é uma água que parece ser segura (é fervida, rs), o sabor não é dos mais gostosos mas até hoje não tive nenhum problema com ela. Já a água que sai da torneira do meu apartamento (para lavar roupa, louça, banho) não é das mais sujas mas está longe de ser potável ou passar por algum tratamento rigoroso…

No meu apartamento eu tenho um filtro disponível mas sempre que posso compro água no supermercado pois não me sinto totalmente seguro para consumir a minha água filtrada. Considerando toda a poluição e todo o descaso público indiano no que se refere a gestão de resíduos, tratamento de efluentes + ausência de saneamento básico, a chance de existirem contaminações pesadas (metais pesados e outros resíduos perigosos) é muito alta. Se vier para cá, prepare-se para comprar água de garrafa e verifique se ela está com o lacre original!

Intercambio India Agua Racionamento
Hall de entrada do prédio onde trabalho: Solicitando engajamento da população

3. Save Water, Save Life

3.1 O Comportamento da população

Logo que eu cheguei a Navi Mumbai e entrei no prédio da minha amiga da AIESEC, vi ao lado da porta do elevador um cartaz pedindo encarecidamente aos os moradores que economizassem água. Eu acabara de chegar do aeroporto, eram quase 5 da manhã e precisava tomar um banho. Fui orientado em relação aos registros, água quente, fria e fui alertado: não use o chuveiro, por questão de conscientização aqui em casa estamos todos tomando banho de balde / canequinha! Foi nesse momento que eu comecei entender um pouco mais sobre como os Indianos costumam tomar banho e quais são as tradições em relação a isso.

Eu havia conversado sobre esse assunto com um colega da AIESEC USP, ele havia me alertado que na Índia, o banho de caneca é super normal. É uma coisa natural e cultural que vem de muitos anos então mesmo nas casas que possuem chuveiro as pessoas costumam colocar água no balde para tomar banho de caneca. Não tem segredo, você enche o balde com água quente (quando o lugar tem água quente, é claro) ou na temperatura desejada, senta em um banquinho e se refresca do jeito que pode. Confesso que depois de vários dias tomando banho de balde percebo o quanto de água é possível economizar mesmo em um banho rápido de chuveiro, o resultado é surpreendente.

3.2 O Racionamento de água e as dificuldades no dia dia

O racionamento da água traz dificuldades para os cidadãos, empresas e afeta diretamente os negócios da Índia. Em alguns lugares as pessoas tem apenas 2 horas de água na torneira: 1 hora pela manhã e 1 hora a noite. Geralmente essas pessoas levantam por volta das 4 horas da manhã para encher garrafas em reservatórios, um esforço diário em busca de água para beber, cozinhar, tomar banho, lavar roupa etc. Imagine só o que é viver em uma condição como essa… não é fácil.

Aqui na minha região (Navi Mumbai) o racionamento está acontecendo e não é toda hora que tenho água disponível na torneira. Não existem horários bem definidos dos cortes, geralmente ocorrem a noite e algumas vezes chego a ficar mais de 1 dia sem água. Isso exige cuidados e planejamento para armazenar água nos baldes e garrafas. Além disso, quando chego em casa e tenho água na torneira tenho que ser rápido e resolver tudo que envolva maior necessidade como: lavar roupas, tomar banho e lavar a louça.

Essa é a regra, por aqui você não pode deixar nada para depois, tem que aproveitar a oportunidade pois no outro dia nunca sabe se vai ter o mesmo recurso pronto para uso. Certamente esse é um dos maiores aprendizados até agora que essa experiência me proporcionou, procrastinar por aqui não é uma boa.

3.3 O engajamento / consciência da população

O que me surpreendeu foi que mesmo aqui na Índia, um país com muita miséria, desigualdade e tudo mais, existe um número de pessoas que vive em uma zona de conforto muito acima da média (classe média e classe alta) e que são muito conscientes sobre a gravidade do problema social. Não que aqui seja um mar de rosas, longe disso, mas o que eu quero dizer é que no Brasil o povo reclama muito mais quando cada um tem que fazer a sua parte.

O Indiano aceita muito melhor a realidade que ele vive, mesmo quem tem um poder aquisitivo um pouco melhor (os poucos que conheci) parecem ser mais sensatos em relação ao problema da água e no Brasil isso não acontece, o povo está reclamando que falta água, culpando o governo mas está sempre gastando em demasia, isso vale para todas as classes sociais. Não estou querendo dizer que ninguém usa o chuveiro mesmo em época de crise, certamente existem pessoas que não estão nem aí mas a minha percepção é que existe uma preocupação mesmo entre as famílias mais ricas. Não importa quando dinheiro você tem, como vai fazer para viver sem água?

 

 4. Considerações Finais

Essencial para nossa sobrevivência, esse líquido tão importante é tema de muitas discussões sociais e geopolíticas em todo o mundo. Na Índia devido o grande número de habitantes a dificuldade em gerenciar o recurso passa a ser ainda mais complicada. Um cenário extremamente similar ao nosso: governos corruptos e incompetentes, roubando dinheiro que deveria ser utilizado em projetos de infraestrutura para o setor do agronegócio e para os cidadãos (captação, tratamento e distribuição). Adicionalmente, considerado um dos país mais sujo do mundo (se não for o mais sujo), o descaso em relação a gestão de resíduos, ausência de sistemas de coleta e tratamento de esgoto fazem com que o pouco da água existente torne-se suja, poluída e imprópria para consumo muito rapidamente.

Os crescimento populacional, o impacto das mudanças climáticas e ausência de governos capazes de controlar a situação demonstram o tamanho do desafio que esse grande país tem pela frente. Em uma cultura com tanta riqueza, histórias, templos e coisas bonitas encontramos, ao mesmo tempo, “falta de cultura” quando o assunto é sustentabilidade e progresso. Por aqui o jogo é aceitar as coisas como são e pedir aos deuses para que venha a água venha, lave a alma e fique durante um tempo. Se você leu esse texto até o final, muito obrigado, aproveito para fazer um pedido:

Economize-a todos os dias. Faça sua parte.

Até!

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